Da Oralidade a Nuvem
Foi quando comecei a frequentar e fazer parte
de partido político e ações visando o empoderamento e ascensão da negritude,
que ouvi pela primeira vez, duas palavras que são mantras: “ancestralidade” e
“oralidade”. Tudo vem dos nossos antepassados e tudo passa de geração a geração
pela palavra. Soa poético e saudosista, porém pouco úteis nos dias de hoje.
Sabemos mais do que nunca, da importância de registrar toda e qualquer ação.
Porém trazer à luz fatos, situações, histórias, personagens e pessoas torna-se
um desafio muito maior. E nessa segunda situação é que está o nosso pecado. E
isso se dá muito pela falta de registro, e o descaso de nossas famílias com
nossa história. Descaso sim. E tem situações distintas quanto a isso. A
primeira é a religiosidade. Nos terreiros tudo é passado pela ancestralidade:
os guias espirituais, os chefes das casas, os filhos mais antigos, passam aos
mais novos ou recém chegados as histórias e os ensinamentos. Como a
convivência, os trabalhos, as tarefas, os ritos são diários ou quase, nada se
perde. Pouco se transforma ou modifica pela atualização da sociedade ou materiais
disponíveis.
Já nas outras formas de organização social da comunidade negra o mesmo não acontece. Os clubes sociais, os times, as sociedades assistenciais, blocos e escolas de samba pouco tem de registro de antigas formações comprometendo assim a sua própria história. Muitas famílias negras que fazem ou fizeram parte dessas organizações, perderam, extraviaram ou colocaram no lixo deliberadamente, documentos, fotos, atas, listas de participantes, registros de eventos por motivos variados. Mudança para casa nova com menos espaço, falecimento de parentes, desinteresse na organização fundada por familiares ascendentes. Dessa forma torna-se urgente o registro de todas as pessoas mais antigas que ainda lembram de fatos, situações, histórias, pessoas e lugares para montarmos o grande quebra-cabeças que é o passado do povo negro. Passado, que se não for registrado poderá ser apagado e substituído. Para explicar relato dois fatos, um de vinte e dois anos atrás. Fui com minha esposa e nosso primeiro filho até Terra de Areia para o batizado do primeiro filho de um amigo da época da Força Aérea. No caminho arté a igreja, passamos por um desfile civil na rua. Um grupo de mulheres cantava a música tema do filme “O Quatrilho” que havia concorrido ao oscar em Hoolyhood. Meu amigo ficou indignado e perguntei o motivo. Disse-me então que a tradição local era na verdade o “Terno de Reis”, uma tradição que veio com os portugueses e que foi tomada, reforçada e amplificada pela população negra. Aí então reparamos, que no desfile, não havia nenhuma referência a participação dos negros residentes no litoral. Falei então ao meu amigo que se a sua família e ele não se posicionassem, nos anos seguintes o fato se repetiria até ser eliminada a participação negra em qualquer manifestação cultural na cidade. O segundo exemplo, também do litoral é o “Boizinho da Praia”. Recentemente Ivan Terra, natural de Porto Alegre e residente na praia de Cidreira no programa De Bate & Papo de Parceiros, relatou o trabalho que tem feito para resgatar a tradição praieira. Tradição essa que passa pela população negra. Entusiasta do nativismo, Ivan ao se instalar na cidade percebeu que a tradição marisqueira estava perdendo força, quase extinta. Tanto que há quase cinquenta anos não se praticava. O Boizinho da Praia, é um festival típico dos litorais de todo Brasil. Tem muitos nomes em várias regiões: Boi Bumbá, Boi de Mamão, Boi de Reis, Bumba Meu Boi e tantos outros. E junto com o boi, vem outros personagens míticos como: o Minhocão da Lagoa do Armazém, a Sereia da Praia de Cidreira, o Boto Encantado da Barra do Imbé que compõe a sua história. Também tem a cultura gastronômica e musical com o uso de chocalhos e o Tambor Praieiro que tem diferentes tamanhos e sonoridades, feitos de maneira artesanal. Mas tudo isso, precisa ser registrado em todas as mídias, em todas as casas de cultura e nas famílias ou daqui a um tempo estaremos fazendo novo resgate. E hoje em dia não há mais a desculpa de espaço físico, temos muitos meios digitais para arquivar e manter viva a tradição da população negra do Rio Grande do Sul. Seja por curiosidade, seja por interesse em participar, seja para atrair e fomentar o turismo, seja para gerar emprego e renda, motivos não faltam para se registrar e resgatar as memórias dos mais antigos, os 60+, os 70+, os 80+ e os 90+ mostrando respeito. Mantendo vivas as tradições para nós e as futuras gerações negras.
