As Rodas de Samba em Porto Alegre
No último dia dos Pais, o jornal
Zero Hora de Porto Alegre no caderno DOC, publicou uma matéria sobre as atuais
rodas de samba que acontecem na capital gaúcha. São citados novos locais e
lugares tradicionais. Lugares que antes nem se imaginaria ouvir samba e outros
onde o samba foi a única manifestação artística. O que fica bem perceptível é
que o samba agora tem tribos distintas, mas que se unem também em qualquer dos
ambientes, sem qualquer preconceito. Os novos locais caracterizam-se por
acontecerem em lugares que o povo do carnaval pouco ou nunca frequenta como o
Bom Fim ou o 4° Distrito. Neles tem um público mais jovem e também mais de
pessoas brancas. Nessas rodas de samba se tem uma menor preocupação com a
roupa. Pode ser aquela de todo dia ao sair do trabalho quando a pessoa para dar
uma espiada, indo ou voltando da aula. Às vezes até voltando de uma corrida de
bike. As músicas, na maioria são pagode de guri de apartamento, Dilsinho, Tiee,
Ferrugem e quase nunca nada feito aqui na cidade. As pessoas dançam pouco e o
que se vê é uma desordem. Na mesma evolução se vê passos de samba raiz, samba
duro, compasso e gafieira. A bebida é kit ou cervejas artesanais que são mais
caras e o horário é de matiné. No máximo até a meia-noite, como o baile da
Cinderela acaba. Já os locais tradicionais, tem as escolas de samba e o bairro
Menino Deus como cenário. A matéria cita a quadra da Praiana, tradicional
escola de samba. Campeã e inovadora na cidade, tem mantido as rodas de samba.
Ali o samba é mais raiz, as pessoas são da comunidade do carnaval, do samba.
São compositores, ritmistas, foliões, passistas, destaques, porta-bandeiras e
mestres-salas de várias escolas de samba de Porto Alegre. São pessoas que não
vão para ver e serem vistas, vão por que o samba está no DNA, tradição passada
de Pai e Mãe para filhos e filhas. O repertório, vai desde os clássicos dos
carnavais da cidade e sambista locais que gravaram como Pau Brasil, Bedeu,
Medina , Paulão da Tinga, Porto Alex, Roberto Costa e outros. Aquele samba mais
cadenciado, na manha por quem sabe fazer o som. Outro local citado é o
tradicional Boteco do Caninha que leva o apelido do proprietário. Lá além das
mesmas características comentadas na Praiana também tem um viés esportivo visto
que muitos dos frequentadores são veteranos do futebol de várzea da cidade. O
Grupo Canela Preta, que homenageia os primeiros negros a jogarem futebol no Rio
Grande do Sul faz lá as suas reuniões. Também é comum ver grupos de amigos
fazerem churrasco, para comemorarem algo ou só pelo ambiente mesmo. Nos dois
locais, mesmo que seja na semana ou finais de semana a roupa é sempre um pouco
mais caprichada. Neles a cerveja são as populares sempre ao gosto do
frequentador. A única coisa que deveria diferenciar é também o horário. Tem que
acabar cedo. Isso não é o que o povo do samba gosta. O povo do samba gosta de
cruzar a madrugada, curtir até de manhã. Esse hábito tem sofrido pressões dos
moradores dos condomínios próximos. O Boteco do Caninha está sendo pressionado
pelos condomínios pela questão do som alto. E não se tem notícia de a
comunidade do samba e do carnaval tenha feito algum movimento para ajudar o
proprietário a fazer um isolamento acústico. Fato já resolvido nos CTGs. Isso
poderia contribuir para que o local permaneça no mesmo lugar. Basta lembrar o
que aconteceu com a Imperadores do Samba. Ela estava há anos num local
consagrado pelo uso mas quando a questão foi para a justiça não houve tentativa
de acordo de supressão do som pelo isolamento acústico e ela teve que mudar de
lugar. O exemplo está ai, bem vivo.

Rogério Wanderley Oliveira