terça-feira, 23 de agosto de 2022

 

As Rodas de Samba em Porto Alegre

 No último dia dos Pais, o jornal Zero Hora de Porto Alegre no caderno DOC, publicou uma matéria sobre as atuais rodas de samba que acontecem na capital gaúcha. São citados novos locais e lugares tradicionais. Lugares que antes nem se imaginaria ouvir samba e outros onde o samba foi a única manifestação artística. O que fica bem perceptível é que o samba agora tem tribos distintas, mas que se unem também em qualquer dos ambientes, sem qualquer preconceito. Os novos locais caracterizam-se por acontecerem em lugares que o povo do carnaval pouco ou nunca frequenta como o Bom Fim ou o 4° Distrito. Neles tem um público mais jovem e também mais de pessoas brancas. Nessas rodas de samba se tem uma menor preocupação com a roupa. Pode ser aquela de todo dia ao sair do trabalho quando a pessoa para dar uma espiada, indo ou voltando da aula. Às vezes até voltando de uma corrida de bike. As músicas, na maioria são pagode de guri de apartamento, Dilsinho, Tiee, Ferrugem e quase nunca nada feito aqui na cidade. As pessoas dançam pouco e o que se vê é uma desordem. Na mesma evolução se vê passos de samba raiz, samba duro, compasso e gafieira. A bebida é kit ou cervejas artesanais que são mais caras e o horário é de matiné. No máximo até a meia-noite, como o baile da Cinderela acaba. Já os locais tradicionais, tem as escolas de samba e o bairro Menino Deus como cenário. A matéria cita a quadra da Praiana, tradicional escola de samba. Campeã e inovadora na cidade, tem mantido as rodas de samba. Ali o samba é mais raiz, as pessoas são da comunidade do carnaval, do samba. São compositores, ritmistas, foliões, passistas, destaques, porta-bandeiras e mestres-salas de várias escolas de samba de Porto Alegre. São pessoas que não vão para ver e serem vistas, vão por que o samba está no DNA, tradição passada de Pai e Mãe para filhos e filhas. O repertório, vai desde os clássicos dos carnavais da cidade e sambista locais que gravaram como Pau Brasil, Bedeu, Medina , Paulão da Tinga, Porto Alex, Roberto Costa e outros. Aquele samba mais cadenciado, na manha por quem sabe fazer o som. Outro local citado é o tradicional Boteco do Caninha que leva o apelido do proprietário. Lá além das mesmas características comentadas na Praiana também tem um viés esportivo visto que muitos dos frequentadores são veteranos do futebol de várzea da cidade. O Grupo Canela Preta, que homenageia os primeiros negros a jogarem futebol no Rio Grande do Sul faz lá as suas reuniões. Também é comum ver grupos de amigos fazerem churrasco, para comemorarem algo ou só pelo ambiente mesmo. Nos dois locais, mesmo que seja na semana ou finais de semana a roupa é sempre um pouco mais caprichada. Neles a cerveja são as populares sempre ao gosto do frequentador. A única coisa que deveria diferenciar é também o horário. Tem que acabar cedo. Isso não é o que o povo do samba gosta. O povo do samba gosta de cruzar a madrugada, curtir até de manhã. Esse hábito tem sofrido pressões dos moradores dos condomínios próximos. O Boteco do Caninha está sendo pressionado pelos condomínios pela questão do som alto. E não se tem notícia de a comunidade do samba e do carnaval tenha feito algum movimento para ajudar o proprietário a fazer um isolamento acústico. Fato já resolvido nos CTGs. Isso poderia contribuir para que o local permaneça no mesmo lugar. Basta lembrar o que aconteceu com a Imperadores do Samba. Ela estava há anos num local consagrado pelo uso mas quando a questão foi para a justiça não houve tentativa de acordo de supressão do som pelo isolamento acústico e ela teve que mudar de lugar. O exemplo está ai, bem vivo.

Rogério Wanderley Oliveira